Trabalhar com uma visão integrada sobre conceitos amplamente difundidos pode ser a chave para enfrentar os desafios do mercado!
Nesses 4 anos de Revista Pecuariasul tivemos a oportunidade de dialogar com muita gente. Produtores rurais que nos abriram as porteiras e compartilharam informações preciosas com quem nos lê, profissionais com quem conversamos cotidianamente, pessoas de dentro e fora da cadeia pecuária. Nessas andanças discutimos inúmeros temas, mas sem dúvida que a intensificação tem sido o mais discutido, até mesmo porque, são muitos os caminhos para se intensificar a produção pecuária.
No entanto, na maioria das vezes, discutimos maneiras de intensificar a produção em momentos distintos de quando discutimos bem-estar animal e sustentabilidade (principalmente a ambiental).
A integração entre bem-estar animal, intensificação produtiva e sustentabilidade econômica e ambiental representa hoje uma das principais estratégias para garantir a competitividade e longevidade da produção agropecuária. Longe de serem conceitos contraditórios, esses três pilares se complementam e, quando bem aplicados, resultam em sistemas mais eficientes, éticos e rentáveis.
O mercado consumidor tem evoluído de maneira muito rápida no que tange a ampliação de suas exigências e vamos listar exemplos importantes durante esse artigo. Mas antes, vamos revisar alguns conceitos:
O Papel do Bem-Estar Animal na Produção Moderna
O bem-estar animal vai muito além de uma exigência ética; trata-se de uma ferramenta estratégica para aumentar a produtividade e a qualidade dos produtos de origem animal. Animais que vivem em ambientes saudáveis, com acesso à água limpa, alimentação balanceada, conforto térmico, espaço adequado e manejo cuidadoso apresentam menor incidência de doenças, melhor conversão alimentar, maior desempenho reprodutivo e agregam maior qualidade no produto final, neste caso a carne.
O estresse, a dor e o desconforto reduzem a imunidade, aumentam a taxa de mortalidade e causam perdas econômicas significativas.
Por isso, investimentos em práticas que promovem o bem-estar — como sombreamento, ventilação, enriquecimento ambiental, capacitação de funcionários para manejo humanitário e uso de tecnologias de monitoramento — são, na verdade, decisões econômicas inteligentes.
Intensificação com Responsabilidade: Produzir Mais com Menos
O conceito de intensificação sustentável propõe o aumento da produtividade por unidade de área ou de animal, sem ampliar a pressão sobre os recursos naturais e respeitando os limites fisiológicos e comportamentais dos animais.
Temas como melhoria genética, nutrição de precisão, uso de tecnologias de gestão e uso racional de insumos são pauta constante em nossas edições e apontam práticas de intensificação sustentável com objetivo de reduzir custos de produção, aumentar a eficiência e manter/melhorar os aspectos ambientais. Fica o convite para a leitura do artigo “Incremento da Produção Pecuária Através da Fertilização de Pastagens”, publicado em nossa Edição 23.
A intensificação sustentável reduz custos por unidade produzida, melhora a eficiência dos sistemas e reduz a pegada ambiental, tornando a atividade mais competitiva no mercado global.
Sustentabilidade e Lucro Caminham Juntos
Muitos são os produtores que ainda não conseguem fazer a ligação entre sustentabilidade (principalmente ambiental) e lucro. De certa forma precisamos concordar que a grande maioria dos pecuaristas brasileiros não acessam nenhum tipo de benefício financeiro (bonificação) por respeitar o meio ambiente – algo natural para quem produz, mas, as vezes distorcido na cabeça de quem compra.
Contudo, partimos da premissa de que empresas e propriedades rurais que adotam práticas sustentáveis e que respeitam o bem-estar animal estão melhor posicionadas para acessar mercados exigentes e conquistar a confiança dos consumidores. Esta premissa nos deixa uma clara mensagem – Se você como pecuarista não acessa um mercado de preços diferenciados, qual sua posição na fila desse acesso? Que passos práticos você já deu para estar melhor posicionado que os demais?
Vivemos um momento de mercado extremamente turbulento, onde a guerra comercial com protecionismo e taxações geram perdas ao nosso setor, perdas estas que podem ser mitigadas com a estratégia de mercado correta, sobretudo quando conseguimos comprovadamente atender à demandas específicas.
Um Caminho Integrado para o Futuro
O futuro da agropecuária está na integração inteligente entre produtividade, responsabilidade ambiental e ética no tratamento dos animais. Sistemas que promovem o bem-estar animal e utilizam tecnologias para intensificar a produção de forma sustentável não apenas garantem maior lucratividade, mas também asseguram a resiliência do setor frente às demandas da sociedade.
Quem chegou até aqui pode até estar pensando – “tenho escutado muito essa retórica toda a bastante tempo, mas, para mim nada mudou…” Pois bem, temos a consciência de que o Brasil produz carne em escala e continuará sendo assim. Então, ainda teremos, por muito tempo, uma grande massa de pecuaristas produzindo com o básico da exigência do mercado, assim como temos nesse momento, pecuaristas com perfil empreendedor abrindo mercados (internos e externos) e vendendo seu produto com alto valor agregado.
Existem consumidores no mundo todo dispostos a pagar mais por carnes certificadas, porém, existe um componente político muito pesado para determinados acessos e mais favorável para outros. No entanto, vale ressaltar que existe uma demanda doméstica (de acesso mais simples) crescente por produtos que integram qualidade, bem-estar animal, produção à pasto, sustentabilidade e tudo o que muitos pecuaristas já fazem, mas que por algum motivo, não conseguem transmitir de maneira correta para o consumidor.
Para não ficarmos só na teoria listamos alguns exemplos práticos:
1. Grupo Marfrig – Programa Viva
- Exporta carne com certificações de sustentabilidade e bem-estar.
- Foco no mercado europeu e norte-americano.
2. Minerva Foods – Linha “Green”
- Exportação de carne carbono neutro, com bem-estar animal como um dos pilares.
- Foco em nichos da Europa, Ásia e Oriente Médio.
3. Agropecuária Fazenda da Toca e Korin
- Produção orgânica e agroecológica com forte apelo de bem-estar.
- Vendem a preços superiores no mercado interno e externo.
4. Fazendas do BASA (Carne do Bem)
- Produção regenerativa e bem-estar certificado.
- Exportam para nichos na Europa e têm mercado local premium.
5. Agropecuária Biocanto
- Carne certificada pelo Selo Angus Sustentabilidade.
- Caso reportado na Revista PecuariaSul Edição 12.
Poderíamos seguir por páginas listando exemplos importantes. Temos o melhor ambiente do mundo para a produção pecuária e podemos atender naturalmente as demandas dos mercados mais exigentes e muito do que nos falta passa apenas por organizar, integrar práticas e certificar nosso produto – carne. Como diz o ditado – “boi que chega primeiro bebe água limpa”.
